ROI — retorno sobre investimento — é um conceito financeiro que, quando aplicado a produto, causa bastante confusão. Em finanças, ROI é calculado com precisão: (ganho - custo) / custo. Em produto, raramente os dois lados da equação são conhecidos com precisão.
Mas isso não significa que calcular ROI em produto é impossível — ou inútil. Significa que o exercício é diferente: é um raciocínio estruturado sobre impacto esperado, não uma conta exata. E esse raciocínio melhora a qualidade da priorização mesmo quando os números são estimativas.
O lado do custo
O custo de uma iniciativa de produto inclui tempo de engenharia, tempo de design, tempo de PM, custo de infraestrutura e custo de manutenção futura. O mais fácil de estimar é o tempo — e o mais fácil de subestimar também.
Uma heurística útil: multiplique a estimativa inicial por 1,5 para tempo de engenharia e por 2 para projetos que envolvem integração com sistemas externos ou mudanças em infraestrutura existente. Subestimação consistente de esforço é um dos problemas mais comuns em planejamento de produto.
O lado do retorno
O retorno de uma iniciativa de produto pode vir de várias formas: receita adicional (nova feature que permite cobrar mais, redução de churn, conversão melhorada), custo evitado (automação de processo manual, redução de tickets de suporte), ou valor estratégico (entrada em novo mercado, diferenciação competitiva que não é facilmente quantificável).
Para receita adicional, o raciocínio é: quantos usuários são afetados, qual é o comportamento esperado mudar e qual é o valor monetário dessa mudança? Para custo evitado, é mais direto: qual é o custo atual do problema que estamos resolvendo?
Exemplo de cálculo
Iniciativa: adicionar um painel de relatórios que atualmente é gerado manualmente pelo time de suporte. Custo atual: 2 horas por semana de um analista de suporte, 50 semanas por ano = 100 horas/ano. Com custo horário de R$80, isso é R$8.000/ano em custo de operação. Custo de desenvolvimento estimado: 3 semanas de engenharia = R$15.000. ROI no primeiro ano: -R$7.000 (custo maior que o retorno). ROI no segundo ano: +R$1.000. Break-even em pouco mais de um ano. Com outros benefícios (satisfação do time de suporte, escala para clientes futuros), o investimento pode fazer sentido.
Quando o ROI não é quantificável
Nem toda iniciativa tem ROI diretamente quantificável. Melhorar a qualidade de código, reduzir débito técnico, investir em acessibilidade — essas iniciativas têm valor real, mas o retorno é indireto e de longo prazo. Forçar um número nesses casos produz falsa precisão.
O que funciona nesses casos é usar o raciocínio qualitativo: qual é o risco de não fazer? Qual é o custo do problema que isso resolve ao longo do tempo? Qual é o impacto no time de não ter isso? Para entender como incorporar esse tipo de raciocínio na priorização, veja o artigo sobre como priorizar o backlog.
ROI como ferramenta de priorização
O maior valor do cálculo de ROI não é a precisão do número — é a conversa que o cálculo força. Quando você tenta estimar o retorno de uma iniciativa, precisa articular exatamente o que vai mudar, para quantos usuários, e por quê. Esse processo revela suposições, identifica onde há mais incerteza e ajuda a decidir o que precisa ser descoberto antes de priorizar.
Uma forma simples de usar ROI na priorização: estime o impacto esperado em uma escala relativa (alto/médio/baixo) e o esforço de forma similar. Iniciativas com alto impacto e baixo esforço são as óbvias — prioridade máxima. O debate produtivo acontece nas outras combinações.



